Os cães e os frangos



São inegáveis os problemas advindos com o desastre ambiental do último verão. Mesmo que nossa cidade já esteja acostumada o problema das enchentes, frequentes há décadas, nenhuma teve consequências tão trágicas quanto a que ocorreu em 12 de janeiro de 2011. Contudo, o desastre revelou bem mais que as encostas, agora nuas, onde antes havia vasta vegetação.

Nosso município estava sendo governado pelo vice-prefeito, após o prefeito eleito ter se afastado por motivos de saúde. Na prática, tínhamos dois prefeitos, mesmo que as leis eleitorais proíbam tal evento. O que se percebeu foi um descompasso entre os governos municipal e estadual e inclusive, no âmbito interno da prefeitura. Declarações foram dadas, promessas foram feitas, e até hoje, alguns bairros permanecem como no fatídico dia. Não há sinais de melhora e reconstrução na maioria dos bairros, excetuando-se, é claro, aqueles que têm potencial turístico, estes sim, foram reestruturados rapidamente, e isso inclui o centro da cidade.É uma cicatriz incômoda passar em frente de diversas lojas e perceber placas de “Aceitamos currículos”, “Trabalhe conosco”. Faz-nos rememorar a noite chuvosa e o dia seguinte. Centenas de pessoas morreram, e outros tantos fugiram da cidade, por isso a demanda de mão-de-obra urgente. Em consonância com esse fato, há também o fechamento de algumas empresas, inclusive, uma centenária, responsável desde a sua chegada à cidade, pelo desenvolvimento do município.

E mesmo com tantos problemas, percebemos nosso governo “marcando passo”, não há medidas concretas que possam amenizar o sofrimento da população friburguense, nem explicações razoáveis pelos atrasos nas obras.

Neste ínterim, cabe fazermos algumas considerações. Os que ocupam a esfera política, não são nossos patrões, tampouco nossos donos. Estão ali como representantes do povo – e representam muito mal – escolhidos pelo voto popular, única manifestação da democracia e cidadania promovida por eles. Sob esse aspecto, seu ofício tem uma relação trabalhista: são nossos empregados. Pagamos-lhes o salário, a gasolina que consomem, a roupa que vestem e o lugar onde moram, e ,inclusive, o décimo quarto salário, desconhecido da maioria da população brasileira. Como somos gêneros, não é mesmo?

Sejamos sinceros: é coerente se aproximar do patrão e anunciar o próprio aumento salarial, qualquer que seja o percentual? Alguém faz isso? Não! Mas estes senhores o fazem. E em resposta, sentados ao sofá com nossas famílias, resmungamos, talvez digamos alguns impropérios e acabou. O salário deles realmente aumentou, nossa vida continua a mesma e quando recebemos a notícia do aumento do salário mínimo – também escolhido por eles – deparamo-nos com um aviltante e ínfimo percentual. É constrangedor.

Ora, se são nossos empregados, e os empregamos em época devida, quando não estão cumprindo seus papéis corretamente, podemos e devemos demiti-los, não há nada demais nessa prática. Entretanto, o que anda faltando ao povo friburguense e brasileiro em geral, é atitude. Como certa vez disse um jornalista, conseguimos juntar milhões em passeatas contra a homofobia, a favor da liberação da maconha e por motivos religiosos, mas não conseguimos nem uma dezena de indivíduos contra a corrupção. E é a mais pura verdade. Os protestos que são feitos, ocorrem ao horário do expediente. Desculpem-me, mas não acredito que alguém vá se comover com uma singela passeata ou protesto que acaba às 16 horas.

Em 2010 o governo francês propôs que se aumentasse a idade mínima para a aposentadoria de sessenta para sessenta e dois anos. Os protestos foram de tamanha intensidade, contando com manifestações populares e greve generalizada, que obrigou o governo a repensar o assunto. Na Grécia, este ano, sob proposta de reformas trabalhistas, o povo, a exemplo dos franceses, também se insuflou, se mobilizou, cruzou os braços. Todos protestaram, e a máxima de que “a união faz a força” pode ser comprovada. Infelizmente, não vemos isso no Brasil.

Diante disso é que podemos perguntar: porque apenas os desabrigados das chuvas de 2011 é que protestam – quando protestam – se todos fomos vítimas, em maior ou menor grau, da catástrofe? Porque nos acomodamos e não cobramos nossos direitos, como a reconstrução da cidade, incentivos fiscais para que novas indústrias se instalem na cidade (há pouco tempo uma multinacional do ramo de laticínios pretendeu se instalar por aqui, voltando atrás em seus projetos por incentivos fiscais de outra cidade. Há décadas uma empresa de artefatos de couro tenta sobreviver à falência, e este ano, outra empresa, do ramo têxtil, anunciou que fecharia as portas. Se a prática continuar, rapidamente, seremos uma cidade de desempregados), construção de casas populares – que até hoje não saiu do papel? Todos devemos protestar!

Se um cão se aproxima de um galinheiro, ao ser notado, os frangos fogem em disparada, cacarejando e procurando abrigo. Eu garanto meus amigos, que se os frangos ao perceberem a presença do cão, se aglomerassem e partissem de bicadas e esporadas em direção ao cachorro, o inimigo pensaria duas vezes, ou então, nem se atreveria a atacar os galináceos.

O povo precisa saber se mobilizar e cobrar seus direitos, da mesma forma que os deveres lhe são patentes. Para isso é necessário se organizar, e não somente os desabrigados, mas todos os friburguenses, todos fomos atingidos. Nossos irmãos cachoeirenses acamparam em frente à prefeitura para cobrar melhores salários. É assim que deve ser! Um protesto pacífico, mas com atitude, com firmeza de discurso. Não é apenas o voto que identifica o cidadão. A busca pelos seus direitos também é marca da cidadania.

Aliás, não se esqueçam: 2012 teremos eleições. E a catástrofe será usada como máquina de votos. Não se esqueçam, senhores, por favor. Por vocês, por nós, por nossos filhos.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.